*iSoLdA*
.
.
"Olha duas vezes
se procuras
a verdade;
olha uma só
se procuras
a beleza"

(Frédéric Amiel,
filósofo suíço)



"Libertar o pensamento é voar sem precisar de asas para chegar alto nem de pés para a garantia de uma boa aterrissagem"

BEM VINDOS AO *iSoLdA*,
sua viagem em pensamento




“E se você dormisse? E se você sonhasse? E se, em seu sonho, você fosse ao Paraíso e lá colhesse uma flor bela e estranha? E se, ao despertar, você tivesse a flor entre as mãos? Ah, e então?”.
(Coleridge)






¿ISOLDA?
(RÁPIDO PARA NÃO PARECER CHATO)
FAMÍLIA.
ROER UNHAS.
BAHIA.
INCENSO.
MADRUGADA.
TOMAR BANHO.
TATUAGEM.
24.
ESCREVER.
PERNAMBUCO.
CÁSSIA ELLER.
JORNALISMO.
MATERNIDADE.
SOL.
HERCULANO.
POESIA.
SANDÁLIA DE “ARRASTA”.
PIRULITO.
EGOÍSMO.
FELICIDADE.
PIERCING.
TREZE.
SOBRANCELHA.
PARAÍBA.
CRIANÇA.
DICIONÁRIO.
FICAR EM CASA.
COTONETE.
JULIO.
MÚSICA.
CHEIRO.
LIBERDADE.
TPM TIPO “C”.
VIVER.
CHUVA.
MEDO.
ALAGOAS.
BOBAGEM.
LOS HERMANOS.
AMOR.
ESCAPULÁRIO.
POLÍTICA DA BOA CONVIVÊNCIA.
CICATRIZES.
PADARIA.
CÉU.
BARULHO DE VENTILADOR.
LEALDADE.
HIDRATANTE.
MENSTRUAÇÃO.
BARQUINHO DE PAPEL.
CHOCOLATE.
DEUS.
MORENA.
CONVERSA.
SAUDADE.
GOSTOS SIMPLES.
SILÊNCIO.
DEPRESSÃO PÓS-PARTO.
VONTADE.




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{[(Eu tenho medo das surpresas da vida,
das emboscadas sem escapatória,
da ironia.
Medo da morte que virá um dia,
como tudo,
de um certo modo, vem. Temo a fúria
dos meus inimigos e até dos poucos amigos que guardo.
Medo da fraqueza,
do sono,
do silêncio,
do fim...
Tenho medo de mim
quando não posso comigo e descubro coisas
que não preciso:
ódio,
vícios,
mágoa...
É medo sim,
medo só
e de tudo.
Medo das derrotas,
E, lá no fundo,
das grandes conquistas.
Medo de ter que começar de novo,
de ser fraca demais pra certas coisas.
Medo do clima escuro e frio
nos falsos sentimentos...
Medo dos atos e pensamentos.
Medo.
De perder
antes que eu ganhe,
de ter que parar
antes que acabe.
Antes de tudo:
o medo.
De sair de mim
e não voltar.
De ser, estar,
permanecer, continuar
sozinha.
Da culpa ser toda minha.
Das vírgulas,
pontos,
e principalmente
das reticências...
Das perguntas,
respostas
e incertezas.
Medo do muito.
Medo do nada.
Medo
dessa chama acesa
que, aos poucos,
faz-se brasa.)]}

_Isºldª, qualquer dia desses/2003_










































"Sou inquieta, áspera
e desesperançada.
Embora amor dentro de mim eu tenha,
só que eu não sei usar amor,
às vezes arranha
feito farpa.

Se tanto amor
dentro de mim
eu tenho,
mas no entanto continuo inquieta,
é que eu preciso
que o Deus venha
antes que seja tarde demais.

Corro perigo
como toda pessoa
que vive
e a única coisa
que me espera
é exatamente
o inesperado.

Mas eu sei
que vou ter paz
antes da morte,
que vou experimentar
um dia
o delicado da vida.
Vou aprender
como se come e vive
o gosto da comida."

(Cazuza/Frejat/Clarice Lispector)

















"Por que escrevo?
Porque sou pouca e mínima,
embora vária.
Porque não me basto.
Escrevo para compensar a falta,
porque não quero
ser só raiz e haste
e preciso do outro
para dar sombra e fruto".
(Olga Savary)





"...Penso apenas porque
me agrada a idéia
de divagar sobre os assuntos
que eu bem entender,
sem preconceitos e,
ao mesmo tempo,
exercitar a única liberdade
que realmente tenho.
Penso até
para testar minha moral,
o prazo de validade
dos meus conceitos,
para julgar
o (meu) certo
e o (meu) errado
com pelo menos
alguma lucidez"

(Fábio Loureiro; Eu, Cartesiano)




"Concluireis comigo
que o melhor é não amar,
porém aqui,
para dar fim
a tanta amarga tolice,
aqui e ora
vos direi a frase antiga:
que é melhor não viver.
No que não convém
pensar muito,
pois a vida é curta
e, enquanto pensamos,
ela se vai e finda".
(Rubem Braga)



Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.
Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.
És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.
Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.
És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.
Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.
(Luís Fernando Veríssimo;
Tu e Eu)




Quando o primeiro amor morreu eu disse: morri.

Quando meu pai se foi,
coração descontrolado,
eu disse: morri.

Quando as irmãs mortas,
a tia morta,
eu disse: morri

Depois, a avó do Norte,
os amigos da sorte,
os primos perdidos,
o pequinês, o siamês,
morri, morri.

Estou vivo,
a poesia pulsa,
a natureza explode,
o amor me beija na boca,
um Deus insiste que sim.

Sei não,
acho que só vou morrer
depois de mim.

(Tanussi Cardoso - As Mortes)



.:cAMINHUS_OUTRUs:.
o cruzeiro
caros amigos
amálgama
observatório da imprensa
banheiro feminino
kibe loco
revista piauí


.:dO_BARALHo:.
rICARDO NOBLAt
bRAULIO TAVAREs
aRNALDO JABOr
zÉ SIMÃo


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_E_MEMBROs:.

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Ejaculação Poética
O Obscurantismo do Nada
Universo de Sabedoria
Sem Título
Atrevimento Repentino
Another Girl
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Universo das Letras
Catadióptrico
As crônicas do João
Releituras
Deus lhe pague (sem pudor)
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Affonso Romano de Sant'Anna




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Diz-me com quem andas...



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Por Fabiana, do Delícias Culinárias - Fabi



Por Fabiana, do Delícias Culinárias - Fabi








cONTADOR DE VISITAs



*iSoLdA*
Terça-feira, Novembro 24, 2009


O blog Isolda fez as malas e mudou de endereço. Conheça a nova casa:

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Acesse para acompanhar mais novidades.


.: ISOLDA HERCULANO 15:43 .: |

Sábado, Maio 30, 2009

A esquizofrenia do tempo

Eu tenho quase 25 anos e muitas histórias para contar, diz meu pensamento reducionista, como se minhas experiências diante da vida fossem enormes e cansativas. Mas elas são nanicas e não sempre monótonas.

É claro que vivi dias de me sentir uma senhora já caduca; quando não uma criança prestes a chorar por qualquer coisa das mais bobas. E não sou uma nem outra; sou o meio termo vagando entre o quarto de século – que faço em breve – e uma eternidade de tempo que pode acabar hoje. De qualquer forma isso me atinge, ora sem afligir ora afligindo. Não há de ser, porém, a crise dos trinta, sobretudo porque são ainda vinte e tantos.

Talvez eu tenha vivido da forma mais espontânea todas as emoções, sem espaço para atrasos e arrodeios. Ou talvez aprendido a mentir descaradamente, até sentimentos. Com vinte e poucos anos já não nos achamos os donos da verdade que a adolescência pleiteou à custa de revoltas frágeis e impensadas. Aliás, olhando tudo como está agora, pareço muito distante da época em que fui adolescente – e que surpresa ainda ter espinhas na cara.

Por outro lado, a infância se foi e não sinto que faz tanto tempo assim. Ontem eu era uma menina tímida que precisava da mão de alguém para atravessar a rua, fazia deveres de casa e levava a merenda na lancheira. Na verdade, não há tanto o que contar, mas ainda é a minha vida inteira.

.: ISOLDA HERCULANO 00:34 .: |

Quarta-feira, Abril 29, 2009

É como você pensou?

Escutando uma música qualquer, que nem remetia ao assunto, desatinei a pensar agora há pouco: a minha vida é como eu imaginei que fosse? A solução do questionamento é óbvia: não! E me diriam os poetas que a existência não teria a menor graça se pudéssemos prever o porvir. Aceito a hipótese, como manda o bom senso, mas devo admitir que, às vezes, poesia demais cansa.

E porque a vida não é como eu pensei que seria? A alternativa menos dura talvez seja: porque troquei meus planos antigos por outros novinhos em folha. Quando criança, por exemplo, planejei crescer o suficiente e ter uma casa de ‘primeiro andar’ com piscina. Adolescente, acreditei que o primeiro namorado era o amor da minha vida – com direito a ilusões de casório na igreja, filhos, felicidade eterna etc. coisa e tal. Hoje, nenhuma dessas coisas faz sentido para mim; exceto os filhos, que não são para agora.

A segunda, e mais dura alternativa é: a vida não é como imaginei porque eu não consegui realizar muitas das coisas que planejei. E isso não tem relação alguma com estar preparado ou não, pois todo mundo já deve ter se organizado – dando tudo de si, inclusive – para algo que não deu certo. Dizem os otimistas que algumas coisas precisam dar errado para que achemos os caminhos corretos; os realistas, por sua vez, acreditam que há uma probabilidade para tudo; os pessimistas querem nascer de novo e, da próxima vez, com a bunda virada para a lua.

A vida é mesmo muito diferente de tudo o que a imaginação deu forças para que eu pensasse, mas é minha e não vou esperar outra – que talvez nem exista – para correr atrás do velho sonho da realização (pessoal, profissional, o escambau!). Já a existência de vocês, quem sabe, seja o retrato do que tenham pensado há alguns anos atrás. Ou não. Pode ser que estejam no mesmo patamar que eu. Então, desejo que nós todos ainda tenhamos muito tempo para avaliar a real face de nossa vida: leal ou bandida?

.: ISOLDA HERCULANO 22:10 .: |

Terça-feira, Abril 14, 2009

Alma sebosa?

Limpar a casa, às vezes, é tarefa penosa; pelo tal de lava, esfrega, varre, espana, enfim. Ao final do processo, porém, o cheirinho de limpeza deixado no ar entoa uma espécie de mantra que parece repetir: missão cumprida, missão cumprida... Como se a vida não tivesse missões mais árduas, como se nós não tivéssemos que tratar com coisa tão mais suja e mal cheirosa.

Porque o pior é quando precisamos faxinar além. Lá onde os espanadores e as vassouras de vasculhar não alcançam. Talvez eu precise de uma faxina na alma – como já disse, um dia, aquele poema atribuído ao Drummond, erroneamente: “acreditou que tudo estava perdido? era o início de sua melhora”.

Engraçado como passamos parte da vida imaginando que só podemos melhorar uma coisa que já está preta. Isso deixa a tal faxina sugerida apenas para quando a alma (a nossa alma) está tomada de impurezas e substâncias cancerígenas. E o excesso de poeira que deixamos para limpar depois – semana que vem... – acaba se tornando a nossa tosse persistente amanhã, a alergia que aparece de tempo em tempo.

Eu não posso saber quando cada pessoa retira a poeira dos seus dias: todas as semanas, mensalmente, por semestre ou se a maioria deixa sujeira acumulada nos atos e pensamentos até que ela comece a incomodar de verdade. Quase todo mundo já chutou o lixo para debaixo do tapete e até conseguiu contornar a situação por um período qualquer, que certamente passou. Mas eu sei que emoções perdidas, sonhos frustrados e palavras enclausuradas não se escondem muito tempo depois que começam feder. Por isso recomendo, periodicamente, faxina na alma com uma boa dose de reflexão higiênica.

.: ISOLDA HERCULANO 21:20 .: |

Sexta-feira, Abril 03, 2009

Enfim, poesia

Já faz um tempo não escrevo poemas. Devo estar naquela fase de inspiração seca – comum a todos os poetas; mesmo aos amadores como eu. Pois bem, diante de uma gripe (que incomoda, mas não me intimida) resolvi republicar a poesia que segue, escrita sobre a enfermidade de alguém querido. Espero que vocês gostem, porque ela me agrada muitíssimo.

Incondicional
(ou poema para o meu amor doentinho)


Amo-te em chás de eucalipto
e compressas de água fria,
em mãos na testa, em agasalho,
em preces ao findar do dia.

Amo-te em sonos não dormidos,
que me consomem pensamentos:
se dormes bem ou estás sofrido,
se a febre é dor ou sentimento.

Amo-te em cápsulas, medidas,
sopas, mingau bem aquecido
– aviõezinhos que recusas
com ares de mal agradecido.

Num amor que em nada se intimida,
eu sigo, enfim, sem precedente.
Amo-te como a mãe ferida
de amar mais o filho doente.



.: ISOLDA HERCULANO 17:44 .: |

Sexta-feira, Março 27, 2009

E-D-A-D-U-A-S

Claro que vocês todos já devem ter sentido uma saudade que – não é exatamente esta, mas – parece muito com a que eu sinto agora. Não é saudade daquelas que se mata apertando uns dígitos do telefone nem mandando e-mail. Não é saudade que voa longe quando o contato está online no Messenger e sequer sabemos ainda o melhor a fazer: tomar a iniciativa ou esperar que ele fale primeiro.

Tenho amigas que sentem uma falta danada de certa calça jeans que não cabe mais – e culpam os hormônios, os filhos, o estresse oriundo das facilidades urbanas. Mas sentir falta ainda não é sentir saudade. Eu também sinto falta de coisas impraticáveis, por vezes. De fases que não se pode rebobinar, como uma fita cassete antes de devolver à locadora. Já senti falta da minha primeira professora, porém tenho consciência de que ela não é mais aquela: aposentou-se, tem cabelos brancos, ficou viúva. Não vou chamar isso de saudade, porque acho que é mais falta de um impossível que se estabeleça neste mundo do “tudo possível”.

Mas voltemos a minha saudade, que não me faz um bem, só mal – já que é privilégio das coisas boas passarem a ser ruins quando não existem mais. A saudade que sinto é de um tipo que a lembrança só evidencia; e lembranças não são de pedir licença antes de entrar. Às vezes ela faz com que eu fique fria e, indesviavelmente, fraca a ponto de não suportar o peso de uma lágrima prestes a cair. E não me digam que se rebobina a lágrima que cai. Ah sim, eu fico melodramática e invento coisas sob o efeito da mais pura saudade...

As pessoas que amo estão longe de mim. Isso é saudade. Elas dizem estar bem e eu não sei se é verdade ou meia-verdade. E não sei se elas sentem o mesmo que eu ou vão além de mim uma metade. Talvez suas saudades também lhes tragam rima... e elas peçam por mim ao cara lá de cima.

.: ISOLDA HERCULANO 17:20 .: |

Quarta-feira, Março 18, 2009


Das pessoas e seus espaços

As pessoas perguntam se não me sinto sozinha. Respondo que sim e é claro que a minha solidão faz com que, por vezes, eu toque muito no assunto de estar só – uma dolorida redundância. Sou humana e, por mais preenchida que esteja, de pessoas e coisas ao meu redor, vou notar a falta de alguém que está longe, de um cheiro que nunca mais senti ou de um lugar que existe apenas no meu pensamento.

Porém elas – as pessoas – não gostam de me ver sozinha e até provocam situações para arrancar de mim esta rotina que lhes parece tão tediosa. Como se alguém tivesse cura para a loucura alheia. E olha que não sou louca. Nem doente. Apenas devo ter perdido algumas peças do quebra-cabeça que é a vida. Não me aflijo ainda porque não estou em idade de afligir, penso. Se bem que é aconselhável pensar pouco nessas horas.

Eu sei o quanto elas gostam de mim – eu sei. As pessoas me oferecem pratos que desejo, aumentam o som quando a minha música toca no rádio, deixam mensagens no meu celular, escrevem e-mails de vez em quando. Elas sempre tiveram essa espécie de obrigação com a bondade; como se eu não pudesse entender sua maldade necessária e indesviável.

As pessoas me fazem bem quando lhes convêm. Querem assoprar o cisco no meu olho. Percebem que rôo as unhas diariamente. Sabem quanto eu calço, visto, peso e meço. São tão completas que só acreditam na precisão dos outros. As pessoas são perfeitas, eu sou cheia de buracos.

Mas é uma pena ouvir, por muito tempo, quem acredita já ter completado todos os seus espaços.

___________
Apesar das atualizações inconstantes, nunca vou deixar de dizer que me sinto respirando quando escrevo neste blog. Lugarzinho no mundo que me faz sentir em casa.

Ilustração: Mateus Velasco.

.: ISOLDA HERCULANO 22:07 .: |

Sábado, Fevereiro 28, 2009

Ser quando crescer

Dia desses, prestando atenção na vida alheia dentro de um ônibus semilotado, ouvi o pai dizer orgulhoso para uma amiga que seu filho gostaria de ser médico quando crescesse:

- Não é, filhote?, perguntou o homem, como se a comprovação do menino fosse indispensável para inflar ainda mais o seu ego paternal.

- Hum-rum, o guri balançou a cabeça em sinal positivo, enquanto parecia lhe interessar mais o carro de churros ao lado do ponto. O motorista arrancou e a viagem prosseguiu.

Impossível não lembrar de uma pergunta que me rondou vários momentos da criancice: o que você vai ser quando crescer? Naquele tempo, a resposta era tão intuitiva que chegava a ser fácil. Minha primeira opção? Policial – após ter sido socorrida por um militar no episódio em que enfiei o pé no raio da bicicleta Caloi da minha mãe. (Risos) Já devo ter contado isso por aqui.

Passadas as primeiras ilusões eu quis, nos meus sonhos de infância, ser professora. Então, juntava uma sala de aula fictícia em casa, formada, basicamente, por primos e amigos mais novos; subalternos. Eram meus alunos, enfim, e a posição de mestra sempre me fascinou. E olha que já se dizia que o magistrado era um emprego sem futuro. Mas me digam qual criança – com todas as prioridades da idade em dia – pensa em futuro? A idéia de futuro mais longínquo que tinha era, por certo, as férias do final do ano.

Num último caso, quis ser jornalista – já pré-adolescente. Tenho, inclusive, um vídeo caseiro onde entrevisto o jogador Romário (meu primo, Danillo) me fazendo passar pela Glória Maria (???). Os nossos desejos de criança devem parecer infantis, manda a própria cronologia, mas não são bobagens – como alguns insistem em dizer. Talvez o meu jornalismo vocacional tenha vindo no encalço da crença de poder ser piloto de avião, médica, atriz de teatro, veterinária, fazendeira, comerciante etc.

O que vejo hoje, e me surpreende, são pais criando filhos muito pequenos ainda como se já estivessem formando grandes profissionais – o que deve ser uma preocupação, claro, não necessariamente prematura. Torço para que um grande médico de amanhã, por exemplo, seja apenas a moldura do grande homem que está por trás da profissão. E que as crianças continuem sonhando ser o que jamais serão.

___________
E você, o que ia ser?


.: ISOLDA HERCULANO 01:30 .: |

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Esconderijo secreto

Apesar das constantes acusações contra a internet, principalmente no que diz respeito ao império da fragilidade nas relações, vejo tudo isso de maneira diferente. É claro que não devemos confiar perdidamente em um amigo que acabamos de conhecer numa sala de bate-papo – lugar que é apenas uma extensão da "vida real". Vai dizer que você dá crédito ao primeiro que conhece na fila do banco? Enfim, acredito que as relações virtuais (entre adultos) não são mais inseguras do que as “reais”, e a prudência vale para ambos os casos.

Um dos fenômenos que considero mais interessantes – e veio a reboque da internet – é a capacidade, quase frenética, de conhecer pessoas. E pessoas são pessoas em qualquer circunstância: pouco importa se estão escondidas atrás de pseudônimos. Converso com gente que diz morar em Londres – e daí se morar em Londrina? A conversa será pior? A pessoa deixará de ser interessante? Não, é a minha resposta. Algumas delas vivem, notadamente, numa timidez social quebrada apenas pelo barulho das teclas digitando login e senha; atitude que lhes dá a plena sensação de ter atingido uma liberdade inalcançável.

E digo ainda: quando escondidas atrás de identidades fictícias, essas pessoas tendem a ser mais sinceras do que seriam carregando o peso de um nome e sobrenome nas costas. Falo isso sem conhecimento científico, mas confesso já ter usado “nomes discretos” em programas de conversação – se eu me chamasse Ana, quem sabe usasse Ana mesmo, o problema é que me chamo Isolda. Ser quem “não somos” faz com que encaremos sentimentos nossos de uma forma mais bem humorada e simplista, até os de derrota, fracasso. Indico a “aventura” para quem tem internet em casa. Como uma espécie de análise sem custo adicional.

O lado triste nisso é constatar que, protegidas pela tela de um monitor, as pessoas sofrem quase sempre do mesmo mal declarado: a solidão. Elas se sentem cada vez mais sozinhas e incompreendidas, ainda tendo marido, pai e mãe, namorada, amigos de “baladas”. Talvez seja este sentimento que as leve cada vez mais, e mais, para frente do computador e da internet. Ferramentas que nos ofertam a opção de brincar de viver, mas também – não se enganem! – de experimentar o outro lado da vida. Vivos.


Um bom carnaval para todos. Alegria e pé no freio!
Clique aqui para ouvir Vida Boa (Fausto Nilo/Armandinho) por Caetano Veloso.
___________


.: ISOLDA HERCULANO 16:05 .: |

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

As janelas do medo

Não, eu realmente não acho que a característica que agrega os humanos como seres da mesma espécie é o fato de todos serem irmãos em Cristo. “Tem muita gente solta por aí que não serve nem para primo”, costuma reproduzir meu “velho” e bom pai. Também não deve ser a condição de mamífero, bípede, com telencéfalo desenvolvido e a presença do polegar opositor. Agregar os homens em uma única categoria só pode ser coisa do medo. Isso mesmo: o medo. Sem me esconder atrás de moitas, reafirmo: o medo.

Mas do que é que temos medo? Muitas pessoas costumam materializar o seu em insetos e bichos horripilantes ou peçonhentos: barata, rato, aranha, cobra venenosa etc e etc. Um pavor genuíno, claro, porém não o único nem o maior de todos. Outras morrem (metaforicamente) ao pensar no desconhecido: morte, espíritos desencarnados, mula-sem-cabeça, saci-pererê. Alguns medos são mesmo ridículos, entretanto, devemos lembrar da máxima dificílima: respeitar as limitações dos outros, sejam elas provenientes de medos reais (criminalidade, avião) ou imaginários [ser traído (a)].

Tem gente que tem medo de dar o primeiro passo para a novidade e passa a vida inteira enfurnada numa mesma coisa, que já não lhe rende ou acrescenta à vida. Por outro lado, alguns não querem parar no tempo e vivem dando voltas, sem saber o porquê, ao certo, e nem qual a melhor hora de parar. Estes têm medo do sedentarismo – de atitudes, principalmente. Pais têm medo de perder os filhos; filhos têm medo de perder os pais. Meu namorado treme ao ver um cachorro passando a léguas de sua pessoa, eu adoro animais de estimação e não podemos nem sonhar em ter medo de viver junto. Um dia teremos, enfim, de encontrar nosso ponto de equilíbrio – mas torço muito para que não seja um poodle.

Entre esses, o pior deve ser o medo da vida. Necessariamente, das surpresas que ela pode estar preparando em seu laboratório de experiências desenfreadas para mim, para ele, para você! Para quem tem medo de desfrutar da intensidade que é viver, sobrará a insegurança gratuita na hora de conhecer pessoas novas – que podem se mostrar bacanas ou intragáveis. Sobrará a pouca chance da experimentação, da pitada de aventura, da palavra dita com a maior sinceridade. E, se acaso este medo acabar, poderá ser o triste sinal de que acabou a vida. Mas restará ainda, quem sabe, o medo do que virá.

___________
E você, tem medo do que?


.: ISOLDA HERCULANO 11:40 .: |

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Banheiro feminino A frase soará machista, mas: vai entender cabeça de mulher! Bem, o fato é que quase nunca leio publicações voltadas inteiramente para o público feminino. Primeiro, porque acho a segregação – Clube do Bolinha e Clube da Luluzinha – boba e cafona. O que interessa, de verdade, deve estar em algum periódico que não separa as pessoas por gênero, raça ou coisa que o valha. O restante é supérfluo demais para muita atenção. Na minha rude e peculiar opinião, claro.

Ironia do destino à parte, dia desses, esperando minha vez na recepção de um consultório odontológico, peguei para folhar uma revista das badaladíssimas. Na capa, a manchete principal dizia: 50 passos para conquistar um homem no primeiro encontro. Com a licença das damas: putaquipariu. Chamadas assim me deixam possessa, pois põem as mulheres na velha posição de objeto sexual. E a vendagem dos exemplares parece constatar que de lá elas jamais saíram – ou pior ainda: não desejam sair.

Resumidamente, a reportagem era um roteiro comportamental feminino – desde o tipo de perfume que ela deveria usar na ocasião até as frases que o homem gosta de ouvir antes, durante e depois do rala-e-rola. Tudo esquematizado, como uma espécie de sinfonia do Armagedom. Não li todos os tópicos, instigada por uma dúvida cruel: porque tantas mulheres lêem essas revistas? Que só dizem: você é gorda, emagreça!seu cabelo é cacheado, alise!seu marido é um babaca, separe-se!você é frígida, seja um furacão na cama! Será que é tão perigoso para uma adolescente não seguir os mandos e desmandos da Capricho, tal e qual é para uma “mulher feita” não ser refém da Nova?

Algumas frases terroristas não me saíram da cabeça, como: deixe que o parceiro conduza a conversa; homens se assustam com mulheres auto-suficientes. Realmente, não sei de que tipo de homem a revista trata nem o tipo de mulher. Tentei visualizar pessoas reprimidas pela família, religião, ideologia, mas continuei achando tudo bem absurdo até confidenciar minhas impressões para uma amiga próxima que me respondeu, de pronto:

- Ah, eu também li essa matéria. É ótima. E funciona.

Sei não. Estou pensando em procurar outro dentista.

.: ISOLDA HERCULANO 03:48 .: |

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Minutos

Sempre ouvi muito falar sobre luzes no final de túneis, e eis que hoje aconteceu algo para me pôr no completo extremo dessa realidade: eu vi um túnel no final da minha luz. Como não acredito na valia de dividir a tristeza com alguém, dividirei a reflexão – o que me parece mais justo, embora possa não ser.

Eu carrego um escapulário – como uma espécie de lembrança familiar – pendurado no pescoço, mas quem convive comigo sabe: não sou religiosa. O que não quer dizer, em absoluto, que não tenha fé ou crença nas minhas coisas; às vezes poucas e mínimas, porém minhas. Gosto, por exemplo, de ler um livreto popular chamado Minutos de Sabedoria, organizado pelo professor Carlos Torres Pastorino. Muitos de vocês devem conhecer.

Pois bem, abrindo meu Minuto agora a pouco – faço isso quase diariamente – a seguinte mensagem surgiu: Deus habita dentro de você! Deixe então que sua bondade se manifeste através dos seus olhos, tornando-os brandos de compreensão, quentes de compaixão, ternos pelo perdão constante a todos... Que nenhum olhar de impaciência ou condenação tolde a beleza de sua vida! Que sua fisionomia irradie contentamento de felicidade, de tal forma que todos os que se aproximarem de você sejam contaminados por seu otimismo! As palavras constam na página 94 do livro.

Diante de um momento triste – ou tenso – é difícil compreender, ou mesmo escutar, o que palavras tão plácidas podem querer dizer. Obedecer ao livrinho simpático não é minha intenção, mesmo porque fazer com que o olhar irradie contentamento e felicidade quando se está num momento de impaciência ou incompreensão deve ser até masoquismo; é para mim. O que não posso é ignorar o sopro importante de reflexão trazido na garupa desta leitura rápida e (im)precisa.

O túnel? Infelizmente (?) foi indesviável, tive de entrar. Ainda não avisto um facho de luz sequer, só escuridão. Mas vou em frente até ela clarear.

.: ISOLDA HERCULANO 23:34 .: |

Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

Os lábios que amamos

“Quando estamos longe dos lábios que amamos, só nos resta amar os lábios que estão por perto”. Os dizeres, atribuídos ao escritor Tomas Moore, são meus conhecidos desde a adolescência. E se somos adolescentes, as coisas todas parecem ter outro sentido. Adolescentes gostam de frases feitas, sensações arrebatadoras, namoro escondido, beijos de amor eterno. Gostavam, pelo menos. As do sexo feminino, especialmente.

Sem querer me infiltrar na inspiração genuína do autor, hoje vejo que a frase é bem mais ramificada do que me pareceu quando eu era uma adolescente, de não sei quantos anos, frente à dúvida cruelíssima de aguardar casta o amor verdadeiro ou desfrutar as paixões de época. (Risos) Bem, deve ser para isso que crescemos: para aprender a ler nas entrelinhas. Depois de adulta, a leitura deste pensamento me fez perceber a importância de viver um momento que se apresenta favorável, mesmo quando ele não parece o projeto de ideal que traçamos. Na esfera do amor, claro – porque muito de “amar” é idealismo puro – assim como nas demais esferas, sobretudo as do pensamento.

Todo mundo deve conhecer a história de alguém que recusou um bom emprego porque estava à espera de um melhor, que deixou de levar o livro para casa porque o autor era um completo desconhecido ou, simplesmente, que tem medo de mudar a marca do xampu porque o cabelo se acostumou àquela. E nem precisamos negar que este alguém possa ser você, ele, eu – vivemos bobagens a cada instante. Às vezes por confiar no nosso “taco” (metáfora explorada pelos [pseudo] auto-suficientes). E outras vezes porque, seguindo regras, acreditamos saber jogar sinuca.

Os lábios que amamos, enfim, são nossos projetos de vida, nossos alvos, de fato. São a porcentagem que falta para a conquista. Só não deixemos de ver aqueles que estão por perto. Uma ressalva apenas: eles, como qualquer decisão, podem ser nossa ruína ou nos proporcionar o experimento do melhor beijo – até que o próximo beijo venha.

.: ISOLDA HERCULANO 18:09 .: |


Coisas de blog

Pessoas!abri o blog ontem e dei de cara com um comentário que me levou a este selo bacana – mandado pela Janine – que ilustra o post de hoje. Ele se chama meME (?) e tem algumas regrinhas a serem seguidas por aqueles que o recebem. Adorei o mimo dela, uma expressiva estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) – leia-se: futura colega de profissão. Bem, vamos deixar de churumela, que o meME quer sua regras respeitadas e questões respondidas. É mole?

Regras:
1 - Linkar a pessoa que te indicou.
2 - Escrever as regras do meME em seu blog.
3 - Contar 6 coisas aleatórias sobre você.
4 - Indicar mais 6 pessoas e colocar os links no final do post.
5 - Deixar a pessoa saber que você a indicou, deixando um comentário para ela.
6 - Deixar os indicados saberem quando você publicar seu post.

Respostas:
1. Aqui, ali e em qualquer lugar (blog da Janine)
2. Regras escritas.
3. Rôo as unhas. Não tenho Orkut. Leio Minutos de Sabedoria. Jornalismo forever. Amo ler e escrever. Tenho alguns outros amores.
4. Acompanhem ao final.
5. Já sabem.
6. Tudo certo.

Agora, minhas belas indicações. Todas as pessoas são queridas:
a) Menino do Rio (blog do Levi)
b) As crônicas do João (blog do João)
c) Atrevimento Repentino (blog do Williams)
d) Tô de Boa (blog do Bruno Felix)
e) Salomão Miranda (blog do próprio)
f) Inconsenso (blog do Rafael, e outros)

Dúvida cruel: alguém teria uma hipótese lógica para o nome do selo: meME? (Risos) Aguardo elucidações.

P.S.: não sou chegada a frescuras, mas que o selo combinou com o layout do blog, ah combinou. Bejocas em todos. E um 2009 pra lá de 2008.

.: ISOLDA HERCULANO 00:58 .: |

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Já é natal na casa dos outros

Hoje um amigo me perguntou se eu já havia paramentado a casa com temas natalinos. A pergunta veio de uma empolgação momentânea – ele tinha acabado de montar a sua árvore e parecia uma criança feliz. Respondi que não. Aqui em casa não temos árvores nem enfeites de natal e, é meio inacreditável mas, só percebi isso diante da pergunta dele.

O máximo de natal que conseguiu chegar perto de nós esse ano ficou estacionado numa guirlanda na porta da casa da vizinha, do outro lado do corredor. Ela chega a ser simpática, mas não é bonita. Talvez porque esteja torta ou porque parece ter participado de muitos natais antes e estar um tanto cansada das batalhas. A conversa de amigos foi rápida e ficou o pedido para que eu coloque algum adorno pela casa. Não precisa ser árvore. Nem guirlanda. Por certo é uma clemência que deixarei de atender – e não entenda com maldade.

Comemorar o natal foi sempre tradição para minha família, com direito a missa, ceia, roupa nova, presente e tudo mais. Na casa dos meus pais, minha mãe, caprichosa como ela só, ornamenta tudo com cores diferentes para cada ano – a minha preferida é a amarela: toalhas de mesa, velas, cortinas etc e etc. Achava tudo muito bonito, mas nunca fui espontânea para fazer algo do tipo. Não tenho jeito, saco nem tesão pela coisa. Também não sou radical a ponto de maldizer as figuras natalinas, muito embora concorde que elas tiram o foco da data, já totalmente desfocada. Prefiro respeitar as crenças e os momentos alheios, sem muita neurose ou afetação.

Não faço idéia de como será o meu natal deste ano. Como passarei, onde estarei, ainda são temas completamente indefinidos na minha cabeça. Tenho a ambição de estar bem e saber das pessoas que amo estarem bem também, nas suas comemorações públicas ou íntimas. Quanto aos balangandãs, eu, no máximo, enfeitarei esse blog, que é a minha casa engraçada – do tipo que não tem teto, não tem nada. E na sua casa, já é natal?

.: ISOLDA HERCULANO 19:51 .: |

Quarta-feira, Dezembro 03, 2008


Talvez eu tenha cansado de falar de amor e solidões que não acabam. Ou talvez o meu cansaço seja engano apenas, pois continuo a me sentir sozinha. E não que a solidão seja a pior das coisas. Às vezes é o contrário. Lembro, na adolescência, de precisar de momentos “comigo mesma e mais ninguém” e de, por isso, meus pais, parentes e aderentes acharem que eu estava deprimida. Guardo o fato como uma passagem boba, porque o solitário e o depressivo não têm tantas semelhanças quanto julgam as coincidências.

Ontem, por exemplo, senti que estava extremamente sozinha. Mas não estava, era mais uma metáfora da vida, dessas que costumam aparecer de noite – e não deve existir nada que deixe o ser humano mais vulnerável de que uma bela noite de solidão. Em momentos assim é comum nos apegarmos a detalhes. Um amigo me contou que quando está solitário sente vontade de tomar um sorvete cujo gosto lembra sua infância – o detalhe é que esse tal sorvete só é vendido na sua cidade natal, a trocentos quilômetros daqui. Meu detalhe de ontem a noite estava relacionado com animais de estimação.

Moro em apartamento e, apesar do contrato não permitir, tenho muita vontade de criar um gato. Resquícios de uma vida inteira rodeada de bichos na casa dos meus pais – favor, incluir na lista: cachorros, papagaios, jabutis, pássaros de diversos tipos, peixes e, é claro, devo ter esquecido alguns. Sei que muitas pessoas acham que gatos são animais malignos, traiçoeiros, fingidos e insensíveis, mas a maioria dos críticos sequer criou um bichano uma vez na vida. Não dou muito ouvido, porque os argumentos deles são, geralmente, chatos. Ontem eu quis mesmo quebrar contratos.

Mas nós sabemos, meu amigo e eu, que a saudade – do sabor da infância e do gatinho de estimação – nada mais é do que nossa cruel vontade de voltar a situações já fora do contexto. Ele deseja rever uma cidade que talvez não exista, onde o velhinho do sorvete nem trabalha mais. Eu desejo o mesmo: a casa cheia, os sorrisos que se escondiam atrás das portas e o descanso proibido do gato no sofá da sala. Só que de desejos que apontam rumo ao passado, o que resta são lembranças e solidão. E sorvetes derretidos. E gatos, que pulam as janelas e vão se encontrar num outro espaço.

.: ISOLDA HERCULANO 22:44 .: |

Sábado, Novembro 22, 2008

Sua vida já começou?

Quando eu era pequena, ouvia as pessoas falarem que a vida começava aos trinta [anos]. Cresci e esse ditado parece ter sido acrescido de uma década. A máxima agora usa a cifra dos quarenta. Bem, tenho vinte e quatro ainda e, embora contrarie o purismo dos ditos populares, acho que a vida já começou para mim sim.

É claro que não vou me valer de uma experiência fenomenal que não acumulo. Comecei a viver faz pouco tempo, acredito. E olha que isso não tem relação alguma com sair da casa dos pais, tatuar partes do corpo, trabalhar, ter cartão de crédito nem dívidas a pagar. Tantas pessoas realizaram todas essas “vontades” do modernismo pueril e estão ainda em estado de quarentena – como que esperando o dia da vida, enfim, deslanchar.

Começar a viver também não se afina diretamente com dar a luz ou fabricar filhos, embora muito se diga por aí que a vida de um casal só começou de verdade depois da chegada do primeiro rebento. Ou após assumirem um relacionamento sério. Ou quando eles conseguiram, enfim, comprar o primeiro apartamento. A vida, ora, não começaria por coisas assim – sob o perigo de poder ser vendida a preços negociáveis.

Rasgar os calendários da ansiedade é a melhor forma de fazer com que a vida comece. Sem a pressão do “sou jovem ou velha demais para isso e para aquilo”. Sei que a vida é muito inesperada para disparar alarmes em um dia crucial. Precisamos de sensibilidade para começar bem os nossos melhores dias. Temos que viver, é meu conselho. Mesmo que existir, por si, já pareça confortável e suficiente. Mas não se valham por mim: o que sei da vida ainda é pouco e mínimo.

.: ISOLDA HERCULANO 15:51 .: |

Quinta-feira, Novembro 13, 2008

As coisas mais simples

Um monte de gente diz por aí que a felicidade está nas coisas mais simples, ainda assim daria um dedo por uma temporada inesquecível no hotel seis estrelas de Dubai. Mas o bom é que a sinceridade existe – mesmo sendo para poucos – e algumas pessoas são felizes, de verdade, retirando da vida o mínimo que ela tem para dar. Sabe de uma coisa? Acho isso o máximo.

É claro que não sou simplista assim, muito embora me digam com certa constância: ah, Isolda, você é tão simples. Isso porque, tantas vezes, as pessoas julgam a simplicidade como pura falta de vaidade estética. Seguindo a lógica, quem não usa maquiagem é simples. Quem não tem celular com câmera digital? Simples. Quem não alisa semanalmente as madeixas ou nunca fez uma escova definitiva? Simples demais. Não saber o nome escrito na etiqueta da calça jeans também conta. E por aí vai.

Eu não. Simplicidade para mim é outra história. Como o caso de ter chegado na casa de amigos que me ofereceram suas camas e foram dormir no chão. Generosos e simples em vontades. Outros também já dividiram comigo pouca comida, pouco dinheiro, pouco tempo e pouca vergonha. E o melhor da festa: nenhum deles estava tentando ser gentil. A simplicidade nem sempre anda junto da gentileza, mas quando acontece é maravilhoso também.

Outra vez, quis sair com uma amiga para fazer um lanche desses de rua (sanduíche, refrigerante etc) e ela respondeu: não, vamos ficar aqui mesmo. Eu faço cuscuz. Coisas assim sempre me comovem – pouco importa se parecem tanto com as bobagens cotidianas que vivemos. Talvez eu fosse feliz sendo mais simples. Só que adoro cama e lençóis limpinhos, solidão de vez em quando, sanduíches de esquina, ouvir música “elitista”, e visitar todos os mundos que ainda não conheci. Mas tenho que confessar: aquele cuscuz estava uma delícia.


E clique aqui para ler minha crônica desta sexta-feira no Blog do Noblat: Entre a anorexia e a fome.

.: ISOLDA HERCULANO 21:59 .: |